quarta-feira, 16 de maio de 2012

A fonte




Meio impaciente, fui depressa em direção ao precipício e vislumbrei tudo de uma vez. Olhando e indo, indo e olhando, eu via tudo, sem na verdade ver nada. Eu sentia tudo, sem na verdade sentir nada. Eu queria ser tudo, sem de verdade querer ser nada.

E, assim, nesse vôo em que me encontro agora, de corpo e alma em direção ao horizonte, fecho os olhos sem discernimento algum, com a esperança de tocar, ao menos por um milésimo de segundo, algum pedaço de chão que, em mim, toque de volta, antes do impacto eminente, com alguma sublime emoção.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Daquele que se agarrou ao chão


Com as pontas dos dedos,
Se segura no chão.
Com toda a sua força infalível,
Se prende ao chão.

A primeira parte se destaca,
Quase risonha.
A segunda nem avisa,
De vergonha.
E a terceira já nem se percebe,
Medonha.

Assim ele vai-se indo,
Seguro ao chão.
Até que não sobra nada.
Não sobra braço.
Não sobra perna.
Não sobra mão.

E um último grito se ouve.
Quase como uma comemoração.
Uma insana comemoração.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Suspiro



Essa folha em branco tenta absorver esse suspiro forte e profundo, que acaba de me ocorrer. Mas de um suspiro distraído, não se tira lição, nem se tem qualquer solução.

Ele simplesmente acontece, revelador e espontâneo. Embora também seja misterioso e momentâneo. É quase um nada. Suspiro sem encaixe, sem lugar, sem perspectiva, sem vontade. Longa respiração, que diria tudo, se pudesse, se não fosse essa mistura de tanta coisa. Se não fosse essa coisa que se perde, como levada pelo vento, como num descuido distraído.

Um suspiro, até de mim mesmo, desconhecido. Um suspiro que insinua meus mais incompreensíveis desejos. Um suspiro assim, que, por mais corriqueiro que seja, vem gravemente de dentro. Bem lá de onde estou, em desarmonia com o mundo, fora do ar, meio ansioso, em suspensão. Suspirando entre o raso e o profundo, em uma oculta hibernação.  

Mortalidade




Os filhos enterram os pais
Que enterram os filhos
Que enterram as esposas
Que enterram os maridos

Assim um amigo enterra o outro
E o esperado se confirma.
Assim uma pessoa está na outra
Como a morte está na vida

Não dirão dos velórios
Tudo o que já disseram
Das batidas do relógio
Nem sempre foi a vida
Nem sempre foi a morte
Tudo o que de lá trouxeram

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Âmago



Tudo que eu queria
Era a minha canção
Aquela que fluiria
Do fundo do coração

Andando por ai
Me veio uma sensação
Aquela meio comum
De que algo perdi pelo chão

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Desconter-se



A porta se abre por onde a noite passa. O hálito gelado da rua escura circunda em um espírito que se lança, sai por aí e se desfigura. Passa cada passo como se fosse um vôo, como se fosse um salto. Enquanto sensações antes mortas vão sendo desenterradas, reafirmadas, desmortizadas. E mundos inteiros sacudidos, invadidos. Renascidos.

Esse vagar é maior do que qualquer momento, ele é eterno, é desde antes e será depois, para sempre. Não há mistério. Essas passagens são túneis repletos de imensidão, desorientação, confusão. Forte e aparente libertação.

Não é a realidade, a medida. É a intensidade. Intensa vontade de viver. Intensa vontade de fazer durar o que não tem tempo, de se fazer aqui o que não tem lugar. Ardente desejo diante do fracasso de não poder segurar, de não ser nada do que nunca será. De ser tudo, sem deixar de algo encarnar. De se perder. Dissimular...

É esse desespero que celebra a si mesmo, por esse delírio de tentar essa coisa realizar, mesmo sabendo que isso vai ao infinito e que não vai se alcançar, mesmo sentindo na pele esse grito, que não sabe parar de calar.

É, pois, nessa noite sonora, e em silêncio, que se faz esse rito, de fazer algo ser dito, ainda que mal dito, ainda que esquisito, diante desse infinito, que não pode ser contido, para ser exprimido, simplesmente por nunca parar de transbordar.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Segredo



Tem sido esse segredo último,
ultimamente.
Não é nada que eu saiba
exatamente.

De tão amortecido,
passa até despercebido.
E em segredo
permanece aqui comigo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Empatia



Posso ouvir o teu choro de onde eu estiver, mas não faço idéia de onde você esteja. Procuro-te e não te encontro. Mesmo assim, e bem por isso, o seu soluçar tem me causado calafrios e a tua dor tem berrado alto em meus ouvidos.

Mostre-se, diga-me onde você está! Preciso te ajudar, curar teu vazio, fazer algo que faça isso parar. Assusto-me a cada tosse, a cada mínimo murmúrio teu. Ultimamente tenho até andado olhando pra todos os lados, o mais atento possível, e nada.

Cada vez mais claramente escuto o teu íntimo. Até mesmo tuas lágrimas mais discretas e teus choros mais secretos não param de me alcançar. Tenho ficado muito angustiado mesmo com o fato de não conseguir saber de onde isso tudo vem, desconfiando cada vez mais do que isso tudo possa estar se tornando.

E é assim que, insistentemente, com cada vez mais frequência, não tenho mais parado de sentir toda essa tua tristeza que não passa, todo esse teu sofrimento inevitável, que já estão se tornando, quase que exclusivamente, essa minha agonia que perdura...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Isso



O que é isso que surge assim tão de repente, como se já estivesse ai, como se já estivesse sempre em todo o lugar? O que é isso que está alerta demais, cheio de sustos e perseguições, pavores e assombrações? O que é isso que está chegando, que está vindo logo ali, novamente, sem parar de chegar?

Isso que me assombra, que me amedontra, que nunca me evita. Isso que me faz sentir minha própria dimensão, dentro de qualquer imensidão. Isso que anda em círculos, que faz os bichos andarem pelos cantos, cabisbaixos. O que é essa coisa que só não me alcança mesmo por já está no próprio ritmo da minha respiração? O que é isso de que quase sempre me esqueço?

E se já faz tempo que nem parece mais alucinação, o que é que é isso mesmo, então?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Morrer de rir



Morro de rir dessa sua confusão, desse seu jeito de viver por achar que sabe, por tentar dizer que, em verdade, nada sabe. Dou muita risada dos seus compromissos, das suas missões atrapalhadas, sonhadas, imaginadas, que vão sendo trituradas, arrebentadas, redimensionadas.

Uma viagem que nem se completa, um destino que está em toda parte, sem se encontrar em parte alguma. A velocidade sem vento, tanto lamento. Eu vivo é rindo do seu ser em movimento, atento, assustado com o tempo.

E esses sinais, essas buzinas, esses barulhos, esse labirinto, essa perdição, esse desalento. Disso tudo eu me distancio tanto, mas tanto, que sumo da minha própria vista em certo momento, sentindo minhas delícias se multiplicarem, as emoções se redobrarem, como se já não houvesse outro sentimento. Fingindo esse calor não mais existir, fingindo para sempre partir, fingindo tantas coisas, todas as coisas que se há de fingir. Ah! Como é maravilhoso morrer de rir...

domingo, 18 de julho de 2010

Insonhar



Aquele acordo silencioso possuía um mistério nada saboroso. Não explicaram as regras, não explicaram o jogo, mas eles viviam claramente daquele jeito, como se soubessem, como se esperassem, como se concordassem. Os corpos iam de um lado para o outro, em um mecanismo absurdamente valoroso. Apesar de toda a reza, apesar de todo o choro, apesar de toda a euforia, de toda a mentira, o mito, a palavra, mesmo com toda a vontade, o acordo eles cumpririam. Nem precisavam saber, pois assim mesmo sempre saberiam. Ao silêncio nunca resistiriam.

Vingaram as distrações, a dormência e as ilusões, eis o segredo dos corações, a dor latente de um ser sem paixões, de enfim, nada temer, pois esta insônia toda teria mesmo que ceder. Foi só alucinação, foi só impressão. Passa hora, passa tempo, passa agora.

Aos poucos, os tons vão baixando, os instrumentos parando, as vozes sumindo. Bem baixinho, isto tudo acontecendo. Sorrateiramente vencendo, mesmo anoitecendo, mesmo amanhecendo, adormecendo, adormecendo, adormecendo...


O relógio, o sonho, a vida, o engano. São olhos abertos, vermelhos, gana e vontade. Vigília e pulso, cochilo e coragem. Fantasma, zumbi, insônia, agonia. Não cansa, não cansa, não cansa de toda a lembrança, o branco, o escuro, o nada, o absurdo. Deito, leito, vibro, bailo, madrugo. Aceito, direito, é cedo, é isso, consigo, vencido, morto, o acordo, silêncio é talento, nem fecho, nem tanto, nem tento, é só o momento, não surpreendo, defunto, inundo, imundo, vou fundo, profundo, no fundo do mundo... Anda, corre e voa, que luz não magoa e vai à toa, silêncio ecoa, ecoa, ecoa, ecoa...



Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar.
Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar...

domingo, 13 de junho de 2010

Nada



E a vida, quê é?
Um sonho do não-ser?
Um sopro sem porquê?
Vivo sem saber...

Vivo?

Se for perdido,
tanto faz...
Se não há perigo,
já não importa mais...

Eis a morte,
derrubando tudo.
Grosseira, ligeira...

Não foi nada,
não é nada.
É vida, é morte,
sorte, norte, corte.
Nada.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Gênese



Quando me dei conta, eu já acontecia... Cada passo meu ia se misturando àquela confusão, àquele turbilhão incompreensível... Era como se eu estivesse sempre correndo no interior de uma imensidão caótica. Homens dourados, em coros dramáticos, circulando ao meu redor, sem nunca desafinar, não paravam de falar sobre um certo poder de resgatar algo maior, infinito, alguma suposta preciosidade perdida, que me daria sentido, que me daria solução, que me revelaria experiências reais, concretas, verdadeiras. Esses seres parecem esquecer que o meu acontecer é constante, independente, selvagem. Não preciso que me consolem, que me prometam justiça, caridade e vingança. Estou prosseguindo com o que vejo, sentindo a terra em minha pele, a energia em meu espírito e a vontade de gritar com minha própria garganta, por meus próprios motivos.

Sinto a força do insistente amanhecer, daquilo que me faz voar, mesmo soterrado, daquilo que me retira tudo antes de eu nascer e que, ao mesmo tempo, me dá corda para tentar recuperar. Recuperar o fôlego, recuperar o ar que preciso, recuperar as cores com que posso brincar.

Não preciso que se desculpe, que pinte telas belíssimas para admirações olímpicas. Não pedi retrato-falado, retrato-bem-elaborado, retrato-inventado. Não preciso estar inteiro, quero mesmo é estar íntegro, sem suas digressões, sem sua possessividade. Não adianta, não me sinto ligado a suas imaginações, nem mesmo às minhas que nascem das suas. Eu tenho meu próprio acontecer, meu próprio poder.

Ladeira abaixo, cantarolo com pássaros de asas quebradas. Não quero falar sobre eles. Me calo. Canso das batidas nas pedras pontiagudas, das batidas do coração, das batidas daquela velha canção em repetição. Não preciso de uma imensidão que me console, nem de uma podridão que se apiede de mim. Se ainda tenta falar por mim, é porque teme minha escalada em sua civilização.

Não, não quero sua defesa, nem sua solução. Meu começo é meu momento, minhas nostalgias e ancestralidades são minhas. Você nunca pediu minha permissão. Não preciso de suas palavras, elas só fazem voar como penas, fingir coisas que não existem. Se não consegue me entender em minha condição, é porque esquece que foi o mamute que inventou sua civilização.

Eu até entendo sua vigilância cerrada, mas saiba que qualquer vacilo, qualquer deslize seu, entro pela porta da frente sem começo algum, sem explicação, sem coesão. E como sou fruto de sua imaginação, ajeito sua cabeça em um segundo, com todas as pedras e paus que tenho na mão. Quer continuar com historinhas? Crie os terrenos que quiser, sei que tem boa imaginação, só não esqueça que também surjo do vento, e nesta bagunça toda, posso surgir de qualquer direção.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Aberração



Ele mergulhou e se banhou em luz. Quando saiu daquela bacia quebrada, as asas já brilhavam com perfeição. A cura tinha sido incrível, nem parecia mais aquela criatura cotidianizada, da velha selva de pedra. Ele foi se acostumando aos poucos com a sensação que traz o vôo livre; o vento na pele, a vertigem da altura, a multiplicidade de direções e sentidos a serem traçados. A potência era tão grande, que demorou a se acostumar com tantas possibilidades. Mal sabia ele que poderia ser assim tão, tão, tão humano...

Mas até chegar a esse ponto não foi tão fácil, o percurso foi confuso. Não foi pela escuridão da fé, nem pela luz da razão, muito menos de modo equilibrado e diplomático. A guerra foi em outra dimensão, em um plano totalmente inédito, meio abstrato, meio concreto. Naquele cenário vazio, recheado de uniformes, em meio àqueles objetos sedutores que valiam tudo, ele, como um anfíbio acuado, foi inchando, mas inchando tanto, que acabou por explodir, coroando-se assim rei de si mesmo! Nenhum fantasma, nem zumbi, com suas palavras autoritárias e vencidas, conseguiram mais se aproximar daquele ser esparramado, insubordinável.

Aquele poder não gerava solidão, não era como na cidade, era diferente, não dá para transformar a sua perfeição em palavras perfeitas, pois nem a mais apurada técnica é capaz de traduzir a liberdade de ser sem ter que ser... A ruptura foi dolorosa. Claro que muito mais pelo costume do que por qualquer outra coisa. O botão de dar corda, aquele enfiado no meio de suas costas, foi bruscamente arrancado, para que, enfim, desse lugar àquelas asas cansadas de tanto serem guardadas pelas empoeiradas presas mecanizadas, fazendo com que surgisse a maior aberração de todos os tempos!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Supermundo



Dos escombros saem criaturas imundas rastejando por pedaços de vida. O odor que preenche aquele lugar é repugnante, ficar ali é uma sensação levemente insuportável. Os olhos decaídos de cada ser contemplam suas próprias desgraças. Em meio ao lixo, pétalas perfumadas são regadas por lágrimas podres dessas miseráveis criaturas.

Sem se esforçar para sentir qualquer tipo de dor inevitável, todos se tornam magos, todos imaginam correntes e cadeias, que funcionam como fluxo e calabouço ao mesmo tempo, em uma rotineira sintonia coletiva. Naquele mundo fantástico, cada criatura é jogada à própria sorte, fazendo com que as velhas sinas sejam desmanchadas no ar, enquanto os novos sinos não param de anunciar a liberdade da busca pela felicidade, ou simplesmente, da busca pelo sofrimento ideal.

O mundo inteiro ajoelha-se diante da explosão estrelar devastadora, que origina lobos famintos uns pelos outros. O horror espalha-se incessantemente naquele pobre lugar, fazendo da degeneração um vício e da decadência uma saída providencial pelos fundos.

Aquele é um mundo onde loucura e banalidade se confundem, onde todos teimosamente pretendem sobreviver dentro das suas ilimitadas potências, onde, enfim, a carne está rasgada, a alma está ferida, mas os devaneios e delírios não deixam de construir roteiros homéricos, ilustradores dos tropeções mais ridículos, das vitórias mais risíveis e das conquistas mais corriqueiras.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Queria lhe lembrar algo...



Queria fazer uma homenagem às prostitutas, que em sua bendita paciência, aturam os homens que se esfregam nojentos... pelo seu sofrer homérico, de bailar com o corpo e de ter que driblar os horrores, os brutais e insensíveis religiosos... queria lembrar da moça que brinca de balanço porque quer, porque é bom, mas também da que brinca sem sorrir, sem gostar, sem gozar emoção nenhuma... das que doem e doem em sua flor pequena e ingênua... porque não podem com os lobos... e são vendidas, e são transportadas de lá pra cá, no mundo virtual, numa angústia espantadoramente real...

Sentes nojo delas? De suas bocas peculiares e cuspidas? Por que não respeitam as donzelas de alma?... Ser puta de corpo é ser gente que sente, como um político corrupto é gente que toca em seu ombro, aperta sua mão e você sorri... Se não sorri pras mulheres da vida, então chore pelas flores vermelhas... Só não esqueçam que algumas são felizes, não proíba quem quer, sejam anarquistas em alma, seus violentos!

Salvem as puras que sorriem sem dentes... estão em algum esgoto! sem gosto, sem vida, sem nada... pare de lhe dar tiros embalados de preconceito... Falta-lhe carinho sem violência, falta-lhe afeto sem braços roxos, falta-lhe você... falta-lhe eu... eu que hoje senti um pesar, ao lembrar de uma casa que não existe, mas que é real... casa que também é putêro, que vive gente, que também habita dentro de mim...

Sim, nós somos deuses!



Que isso tudo é vazio, não é novidade. Porém tijolos de ouro tentam nos convencer que existe uma verdade, aquela verdade especial, a preciosa, que cala nossa boca só de se mostrar...

Zumbis enfeitados com suas jóias reluzentes convencem seres fortes e corados a morrerem sempre, todo o amanhecer. Tantas cores na tela entontecem nosso senso, prendem nossa respiração, aprisionam peças valiosas.

Mas não podem esconder o abismo por muito tempo, não, não podem. A vertigem do despertar, da vigília, dos momentos livres e inúteis não deixará nossa sensibilidade metalizada. Homens sérios se desmancharão diante dos nossos sentidos. Rituais distraídos perderão suas máscaras, e quando todo o nada se revelar, nossas bocas serão descosturadas eternamente, sem cicatrizar, num constante criar, numa eterna revolução.

Que tudo isso é vazio, não é novidade. Mas não há decepção na conclusão, e sim criação, esperança, recomeço, poder.

Tudo pode mudar... A realidade não existe, eis a boa notícia! No vazio podemos construir nossos sonhos vazios.

Sim, nosso vazio é criativo...

Sim, nós somos deuses!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Você para pra pensar...



Você para pra pensar e não é nada daquilo que você pensou.
Nem sequer imaginou que poderia ter apodrecido com o tempo. Não cogitou em nenhum momento que a multiplicação é sempre um câncer.

O que fazer em desertos gelados? Como não ser vencido pelo cansaço?

Os ventos da existência desgastam até a pedra mais bem polida. Não há espaço para tanto riso, a não ser a comédia ferina, que mascara dores.

Não há tempo para se perguntar se você está alimentando seu inimigo. O ato é só agora. O presente exige e convence que está acontecendo na exatidão do tempo.

A esperança é vã. As coisas sempre mudarão. E mesmo que não piorem, os costumes existirão. O cotidiano ritual não cessa. E vai segurar suas mãos como criança sorrindo e girando, com sua brincadeira leve e diabólica.

Não há verdadeiro suspiro. O que há é um verdadeiro peso no pulmão, que quase te destroça todo por dentro, que te tira do sério, que te faz avançar, mesmo que você não queira, que berra em seu ouvido como um despertador feroz.

Nesse movimento, que talvez não o leve além, você vai empurrando a si mesmo, imaginando as belezas das ideologias sadias, dos combates e embates a favor de suas idéias e de sua moral.

O mundo dá nó em seu coração, e isso vai apertar ainda mais, meu amigo.

E você me pergunta do que estamos falando aqui exatamente? O que mais temos a falar, senão dessas banalidades que nos mantêm de pé, que nos fazem sensatos e serenos, que não abdicam nunca em favor da nossa fera faminta, que nos arrastam para diante do nosso inimigo verdadeiro que está sempre em todo lugar, que está na superfície da aparência e no profundo da essência?

Homens sérios vivendo seus momentos, andando em círculos. Os gritos do peito traduzidos em sentenças racionais ou em expressões artísticas, tanto faz.

Você para pra pensar e não era nada daquilo que você pensou.

Mas mesmo assim, não paramos de caminhar com nossos paus e pedras nas mãos, unhas e dentes afiados, prontos para explodir e nunca mais ficar no lugar...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Percursos


- Vai chegar aonde?
- Não sei...
- Por que quer ir, então?
- Não gosto de ficar aqui.
- Algo de errado?
- Talvez esteja tudo errado, mas tanto faz.
- Partir vai resolver?
- Não quero resolver.
- Não entendo.
- Nada permanece no lugar, não adianta.
- Vou sentir saudades.
- Talvez eu volte.
- Espero você?
- Nunca. Embora saiba que às vezes eu vá querer voltar...
- Me leve, então.
- Mas não sei pra onde vou!
- Não importa, já faz tempo que também me canso...
- E se não for bom?
- Já não era mesmo...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

No longe, no dentro...



Foi uma queda alucinante. A vertigem do momento anterior, minha eterna lembrança, quase orgasmática! Lá embaixo era tudo escuro, um abismo que parecia infinito. Continuei caindo e caindo, não queria mais parar. Por que pararia?

Em dias de tristeza sem lágrima eu ia visitar sapos nas grutas, eles traduziam tudo com seu coaxar. Minha voz não expressaria com tanta clareza aquela espera. Eles ali, saindo para atrair suas fêmeas, expostos aos morcegos. Eu ficava ali até nenhum ruído mais ouvir, até o mundo deles acabar e morcegos felizes irem mais profundamente para a gruta.

As gargalhadas iam desaparecendo aos poucos. Ao longe se tornam melancólicas. Sei que esta não é uma história triste nem alegre, mas certas imagens cravadas na lembrança têm cor e sabor de fruta doce, recém colhida do pé. Não flutuaria se eu soubesse, ou melhor, se meu corpo me permitisse, pois tenho pesos incríveis.

Os sonhos estão mortos e tenho sono. Essas escadas corridas todas para cima não chegam ao céu, então para que pressa? No caminho das pedras enxergo as latas, os alumínios, a tecnologia. Meu frio na barriga me salva da petrificação, mas não me coroa rei de mim mesmo. Avisto ao longe no reino vizinho, bobos gritando de dor, desesperados.

Não brinco com palavras, apenas não as sinto, elas não existem. Quero estar em contato com a realidade, mesmo que seja um mundo de gás ou de espírito. Minha linguagem é meu choro, minha lágrima, meu sangue. Isso, sangue! Palavra esta que não queria que fosse palavra não. Queria derramá-la toda em quem me olha, em quem vive neste mundo, para retirar sua condição de palavra e devolver sua condição de sangue.

Se escrevo com discursos que não são meus, mesmo esta negação, mesmo esta afirmação, como retornar à totalidade? É um desejo necessário? Quem sabe iluminação? Figueiras? Não sei. Deixa-me olhar para o outro lado. É vazio. Sinto falta da vertigem. Odeio meu costume. Essas dores que senti nessa vida toda não permitem que eu sinta mais tanta dor. E no fundo queremos dor, queremos a dor do afeto, queremos o infinito!

Pobre de mim que uso tal pessoa do plural, nem eu sou primeiro. Eu sou tantos e sou nada. Mas quero tudo! Agora mesmo! Já! Mergulho no aquário e me calo. Não quero ir para nenhum lugar. Vejo peixes se debatendo em desertos quentes. Dizem que não dá para fugir. Vamos. Não. Vou. Ir. Não. Ok. Este mundo de pedra branca e linda. Enfeites saborosos, não tanto quanto o sangue e os sapos da gruta. Sim, às vezes retomo significantes de minha quebra esquizofrênica. Lembro do que escrevo, a seqüência é sua, não minha, mas lembro do que está atrás, do que vem antes. E desconfio que não tenha nada de anterior no que vem antes.

O templo de luxo está ali. Estacione. Mas não mate ninguém. Essas moedas somos nós. Elas são tão circulares, que tem uma posição, uma certa posição, que o dedo a faz rolar e a inércia a faz continuar. Expiramos e inspiramos. Inspiração veloz e feroz. Devoramos o mundo, mordemos nosso braço, novamente o sangue, não óleo. Não estrelas. Desenhos animados com estrelas rolando na cabeça.

Em versos não escreveria tal história, mesmo que não seja propriamente uma história o que escrevo. Isso tudo já está escrito, basta sentar e esperar até o último suspiro que enxergará a fotografia de sua vida. Ou nossa vida? Isso deveria doer, mas sei da anestesia. Abro a janela e respiro fundo. Tenho sistema respiratório, tenho meu ser profundo, tenho idéias. Isso é sedução, é cerveja, mulher e machismo. Deveria doer, mas só corrói. Quem se importa?

Minha linha é reta, é aguda e sólida. Não faz sentido para mim. As linhas traduzem o escondido, o reprimido, o feio nosso. Maquiagens. O mamute inventou minha civilização. Minha. Só minha porque só eu existo! Quem negará? Só se for outro eu. Sou tão espelho! Não quero começar, quero encerrar sem náuseas nem flores. Não quero comícios, já disse que não quero palavras. Quero o não querer e o querer ao mesmo tempo. Não esta confusão indizível, inogarnizável.

Esqueço meus desejos e giro. Giro de braços abertos e olho para a TV. Nem vejo direito o que acabo de perder para sempre. Fica uma mancha no meu olhar e a persigo. Ela está comigo ou é um sinal místico? Quem veio até aqui comigo viu uma mancha. Quem não viu morreu. Ou melhor, está nas voltas e voltas circulares deste mundo esférico. Isso nem cabe neste alfabeto, nem nesta língua. Onde está meu universal e minha natureza? Essas paranóias de labirintos sem saída. Cegos gritando para o próprio infinito umbilical. Eu experimento as palavras e a seqüência, mas sem pretensões teóricas. Lançando meu olhar para além das teorias, enxergo tudo da mesma cor. Você escolhe a cor. A mancha sumiu, mas nunca some.

Já sei bem o que escolher para fazer o que já sei que vou fazer. O interessante. O espetacular! Cadê o novo, então? Cadê a revolução? Onde está nosso triunfo prometido? Pergunto para quem? Smith e a mão invisível? Não enxergo, mas sinto! Arde minha pele sensível, não é ferro! Esta locomotiva, deixo com os invisíveis.

Viu o que acaba de passar e me distrair? Um amor! Lindo amor! Não foi um hambúrguer, mas eles me deram cebolas para cortar e fizeram minha casa ser assim, quase uma lua.

E a ré? Não dá para voltar, não? Tradições, reações, convenções. Pelo retrovisor dá para ver certa chama acessa. Não sinto tanto frio. E para frente? É só ir direto, direto, direto, que você acha o caminho. Não tem erro não. Certezas comoventes, emocionantes, irritantes.

Minhas costas cheias de asas começam a coçar, e não quero ser o que esta época é. Ela não “é”. Eu quero “ser”. Nem sinais de trânsito vivem sorrindo com o humano. E os humanos não sabem das coisas. Sabem das palavras. Este total é uma sedução. Quem dera! Porém te puxo pela camisa com força, ousadia e chatice, rasgando um pedaço dela, só pra te fazer parar, estacionar. Tanto faz os caminhos? E se os fedidos pegarem pedra? Os limpos vão arremessar nucleares por ai?

Imagino minha mão crescendo, crescendo, crescendo, empurrando todo mundo ladeira abaixo, sem esmagar, com delicadeza e ódio. Não é barulho de alarme! Sei que nem de humano é, mas é bruto. Não natural das nuvens para a terra. Natural do soco para o rosto. Pensar e moldar melhores pensamentos, evoluir, e fazer cócegas, escorregar na escorregadeira, antes e depois do verbo dizer e escrever sinônimos, eternamente.

Quanta luz! Nem enxergo! Quanta escuridão! Nem enxergo. Nem giro, nem sou mais. Existir? Esses heróis têm cuidados e rotinas. Tem felicidades. As farmácias andam bem. Seus pés nem calos têm. Esta fome é ilusória, mas come. Tem poder e pode me retorcer, arrancar meu óleo lubrificante e tirar parafusos, mudar meu chip e conspirar meu programa.

Ir em direção a morte é irrelevante. Dama bonita, formosa, fútil, esta caveira bela! Sinto inibição ácida. Corro para o hospital dos doentes improduzidos, improdizíveis. Sou eles. Dou as costas para meu corpo que não sou mais eu, nem nunca fui. Caminho com os lábios cheios de sangue, nem triste, nem contente. Dissipo-me. Não vou fugir. Não me engano dizendo o que é caminhar. Não é qualquer caminho, seu gato. Sei onde estou indo, estou cego, tonto e morto, mas sei.

Despeço-me sem olhar para trás, nem ligeiro nem devagar, na verdade nem estou indo, na verdade nem Estou. Sorrateiro te falei em dialeto só nosso. Não guarde esse segredo, não guarde esta ânsia, nem vomite no pé. Fiz uma inutilidade, construí uma realidade. Mexi com os sentidos, mas tudo continua ai em pé e firme. Sedução, aparência. Não falo, mas também não me calo. Não é simples esperança, nem música ambiente. É silêncio. Nem é omissão. Nomeie tudo o que quiser, mas não guarde este meu silêncio. Ele não é só dos anjos. Ele olha para mim e não me diz tudo o que digo sem palavras, mas com sangue, infelizmente sem dor, e também sem euforia. Veias ou fios? Não é mais uma questão em pauta. É nada nas palavras. Portanto esta arma feroz do silêncio é meu tudo! Fora desta experiência estética que compartilhamos como uma noite intensa de sexo selvagem será o que importa, será o dentro, mas não um dentro fechado, e sim um dentro misturado no fora, um longe misturado no perto. Profundamente situado nas bases reais da vida produzida secamente.

No mais, essências e perfumes livres, valores não destruirão silêncios e inexistências, mas o contrário é o que profetiza o meu silêncio, quase absurdamente clamando pelo absurdo e pelo real. Com certa hipocrisia, mas de que importa o enunciador? De que importa o receptor? Nossa sintonia é bem maior, nosso ser é um grito no infinito, no longe, no dentro...

Este tempo



É tempo de poesias tristes, contos de inverno, melodias cortantes, gotas de chuva. Tempo em que se anda devagar, quase sorrindo, numa tristeza suave, morna, sem sabor.

Os gritos são ecos distantes. Gargalhadas sonoras e vazias não alcançam mais este tempo.

O crânio anda cheio, pesado, inchado, explodindo, jorrando sangue sagrado e místico do cotidiano.

A neve circula, o vento congela, paralisa, guarda a fotografia na memória para nunca esquecer deste tempo. Tempo de morte, de fim, tempo de defuntos em coreografias vivas e feias, de gestos sem esperanças... arrepios, calafrios, compressões, desfigurações, ilusões...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A locomotiva



Ouço o apitar da locomotiva
Anunciando o seu acelerar
Ela acelera
Acelera
Acelera
E chega a nada
Nada
Nada
Passando infinitamente no mesmo lugar

Magia e realidade



A magia não está na realidade
Está no coração
De quem devaneia
De quem a anseia

Alguns têm coragem,
Rememoram canções antigas
Em meio a pedras brutas
Revivem pretensiosas cantigas

Nesta dualidade
Magia e realidade
A segunda nem se abala
A primeira cansa e cala

Longe uma da outra
Nunca haverá mistura
O homem do sol
Não saberá o da lua

Mas no coração sobrevive
A fantasia com as cores mais belas
Sem dor, longe do concreto,
Do mundo teimoso e injusto

Sim, no coração sobrevivem
Pureza e melodia
A realidade é quem perde
Não sorrirá nem um dia