domingo, 24 de agosto de 2014
Monstro
Há um monstro em mim
que ninguém vê.
Ele sou eu na padaria,
eu atravessando a praça,
eu olhando fundo.
E através.
Há um monstro em mim,
que passa pelo senhor e não ajoelha,
e ninguém ouve,
e ninguém vê.
Eu sou tão invisível quanto ele.
Há um monstro em mim
que dorme triste em esquinas
dentro de mim,
e que se arroga firme, sem efeito,
a não ser em mim.
Por onde ando,
sigo acompanhado.
Por onde vivo,
ele vai calado.
E há em mim
esse monstro abandonado.
sábado, 2 de agosto de 2014
Perfumes
Dessas ruas escuras,
vazias,
sempre exalam cheiros e perfumes teus,
porque para mim
toda a doçura que há no mundo é tua.
Nessas ruas anoitecidas
e silenciosas,
por onde passo pra qualquer lugar
(sou eu quem atravesso a cidade)
e piso seus calçamentos desconfortáveis,
alguma voz, uma conversa de portão,
eu atravesso.
Nessas ruas sonolentas
por onde passo
sem sequer perceber,
é você quem amorena a minha mente
e se faz lua nesse céu nublado.
É você quem enche meus pulmões
desses aromas sonhados, recordados...
que me fazem percorrer pela cidade novamente,
e mais uma vez,
depois de já ter por ela toda caminhado...
sábado, 31 de maio de 2014
Deficiência
Faz tempo que ele não ouvia mais as palavras, apenas os tons. Não se sabe se
por causa disso ou se por consequência, no seu corpo vingava uma nova química.
Toda vez que conversava com gente, sentia um sono de dormir. É que seu ouvido
há muito perdera a capacidade de escutar ideias, agora só tirava das vozes um
ritmo, como uma canção de ninar. Só conseguia captar a vontade alheia, parou de
enxergar conteúdos. Não sabia mais de nada, só que sentia os movimentos do
mundo, mais nada.
Pedras se chocando, água derramando, cães latindo, corações batendo, e tudo
soando afinado, desafinado ou ganhando afinação. Assim seguia o seu ouvido,
captando melodias aonde não existia. Não existia? Ele não sabia, só sabia que
não podia mais escolher. Acostumou-se, então. Fez até um catálogo todo próprio,
dentro de sua cabeça, por onde passou a reconhecer as pessoas pela canção que
cada uma emanava de sua boca. De sua boca não, ele já não captava um som
isolado, vinha dos outros sempre um conjunto de transpirações que expandia
auras melódicas cada vez mais sedimentadas.
E nesse novo universo que, pra ele, surgia, já não se notava mais as
presenças. Com as presenças ele fazia o que fazemos com as ausências, misturava
música e gente, centrifugava pessoa e melodia. Mais que isso, ele já nem via
mais as gentes, ou as via demasiadamente. Pois agora só via harmonias e
desarmonias. E as via andando pelas ruas, aproximavam-se, afastavam-se.
Enxergando-as como quem ouve o som das cores, como quem escuta o cheiro dos
amores, como quem pressente movimentos de tambores. Ele as sentia pelos ritmos
que traziam. Pelos ritmos que cada uma, por si, expandia...
Apesar disso, ninguém se deu por essa sua estranha alteração, ninguém
percebeu essa sua deficiência, que muito o assustava, não pelo que era, mas
pelo que podia parecer. E o seu olhar saiu por ai emanando tanta graça, que as
pessoas se sentiam elogiadas, não ameaçadas, por tamanha esquisitice, por
tamanha maestria, quase uma magia, que só não reprimiam mesmo porque não
sabiam.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Eles não passaram
Eles não passaram. Estão escondidos no tom de nossas vozes e
nas palavras que não escolhemos. Estão atrás do nosso olhar distraído e no
nosso jeito de caminhar. Estão todos lá. Os das masmorras, os das espadas, os
escandalosos, os sádicos. Como gritos surdos do tempo. Eles não passaram. Estão
aqui conosco. Passando por nós, por debaixo da terra, camuflados em nossos
pensamentos, enquanto sentimos qualquer coisa sem explicação.
Os tagarelas entram em sintonia com eles, por onde
transbordam. Os silenciosos entram em harmonia com eles, onde fazem morada.
Cada ato que não realizamos guarda um pouco deles, é o seu alimento, é do que é
feita a sua dimensão. E cada ato por nós realizado é uma constatação disso:
Enquanto levantamos a mão para uma saudação, eles levantam
para se segurarem à beira de algum precipício. Cada qual necessitando do gesto
um do outro sem perceber. Cada qual em sua intocada aflição. Tão displicentes,
às vezes, até fazemos as mesmas coisas...
Só que eles estão em pleno vôo e nós não alcançamos. Nós
estamos em plena corrida e eles não nos tocam nunca. Simplesmente nos cercam
como poeiras invisíveis, poeiras de seus rastros. Uma poeira que não assenta e
que não se enxerga. Pois estão absorvidas as suas névoas e as suas rasuras, e
eles não passaram. Eles já estão no futuro.
É que a vida abriga a morte como uma ferida irradiando um
cheiro tão misterioso quanto vivo. E a história tem um hálito tão quente, que
dá para senti-lo no simples movimento de atravessar para o outro lado da rua...
sábado, 17 de maio de 2014
A casa antiga
A vida se esvazia de cores, preenchida de fantasmas. Portão que desperta corações com suas chegadas, barulhos de chaves. Ecos do tempo. Ainda escuto o copo se partir no chão. Talheres e bocas. Risadas inesperadas de quem é sério demais, de quem é triste demais. Tentativas de afeto, afastamentos. Eu caminho pelo interior da casa. Ela está ficando maior, igual ao vazio de tudo, do universo imenso, que não consegue conter as coisas juntas, que se expande em força física, em desgastes físicos, tornando tudo tão irreconciliável. Vejo tijolos, rabiscos, nomes semi-escritos. Tudo se foi, eu sei. Estou aqui de pé e a casa está bem diante de mim, quebrada por cima de mim, com todos os seus entulhos travando a minha garganta.
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