quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O ritual

Foi no mar, a minha voz se confundindo com o barulho das ondas, que entendi como tudo faz parte de tudo, o latido de um cão, o amor, a água, o vento. E eu no meio de tudo...

De olhos fechados, não distingui o que era eu do que era o mundo. Meu sangue e minha carne eram como pedaços pequenos do universo, me deixando assim do tamanho dele. Eu me senti pertencente à vida e aceitei isso imensamente. Funcionei como um cordeiro abatido num ritual. Apesar das pessoas ao redor, eu estava só, sem testemunhas, como acontece nos ritos mais fundamentais, inesperados, irreversíveis.
 
Quando eu sai, ninguém viu o sangue derramado na minha pele, ninguém notou o meu sorriso surpreso de paz, ninguém me viu mergulhar na desarmonia de olhos renovados, pisando firme na areia, preparado para todas as pedras e plantas, para todos os abismos e flores. Eu era como um animal pré-histórico saindo do mar...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobrevida



Foi naquele choro sentido, tremendo de corpo e alma, de rosto voltado praquele céu imenso, que fui acertado em cheio por uma certeza também imensa, que invadia tudo de mim. Foi ali que encarei de frente, pela primeira vez, uma das muitas faces da tal solidão inevitável: a da dor imensurável de ver alguns bons amigos partirem para nunca mais.

Existe nisso uma descoberta muito maior do que a morte. Nisso adquiri-se, por tabela, a percepção da morte dos sentimentos em vida, da instabilidade dos laços, das forças intensas que se transformam ou se acabam do nada. Fica, diante dos olhos, o desgaste de tudo. O deslizar teimoso, o escapulir por entre os dedos...

Mas um coração assim não se torna necessariamente amargurado. Ele se umidifica feito orvalho em folhas, ele deseja florir de dentro pra fora, ele quer que ondas de primavera nunca parem de avançar. Nunca...

Ele deseja cansado que todo o desespero o abandone. Ele quer desesperadamente ser abandonado pela morte. Mesmo que isso só aconteça enquanto gruda-se de lábios inteiros em beijos com a vida. Mesmo que isso também morra de vez em quando. Mesmo que isso se enquadre em toda a melancolia adquirida. Mesmo que isso não signifique nada. Mesmo que isso não faça nenhum sentido...

É que todo coração precisa dessa insistência em viver, ainda que transpassado, encolhido, dilacerado. Ainda que de olhos bem fechados, a suspirar como quem respira em mato selvagem... Todo coração precisa de vida pra encarar um mundo que só morre, um mundo que só escorre...

Todo coração precisa se erguer, se reerguer, ter sangue quente de animal, diante do frio daquela verdade imensa, que ventos trouxeram, e nunca pararam de trazer. Ventos que insistem em balançar as plantas ao redor e em tocar esse rosto para sempre distraído, essa alma para sempre enfeitiçada, esse juízo para sempre repartido, provocando esses arrepios desmedidos, que não deixam de colocar a gente pra sonhar teimosamente, até com mais força que a vida...

domingo, 21 de julho de 2013

Um grande nada




Eu quero sublimar-me. Quero que meu corpo se evapore, desaparecido no espaço. Quero mesclar-me a tudo sob forma de ciscos. Esparramar-me pelo mundo. Espalhar-me por ai, todo derramado, inteiramente entornado. Quero desfazer-me completamente. Dilacerar-me, estourar-me. Explodir-me no ar. Pocar. Quero destruir-me por completo, sem que meus pedaços, nunca mais, possam se juntar. Quero desmontar-me, desmanchar-me, apagar-me, todo diluído nas paisagens. Em cinzas, sem chamas, despercebido, sumido, assoprado, carregado pelo vento, assentado pelos cantos, sublimado no espaço, esquecido pelo tempo.

Um grande nada encostou em mim, arrancou todos os meus desejos, confundiu todas as minhas vontades e bloqueou-me com todas as suas malditas travas. Travas que me devoram, travas que me consomem, que me matam, que me deixam inapto para qualquer caminho.

Mas eis que surge essa luz, que, de todo jeito, vem do fundo do meu peito, incendeia a minha mente e desperta esse desejo. O de caminhar de qualquer maneira. O de forçar essa barreira, ainda que sob a forma de poeira.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Você




Esse seu jeito, todo seu, de tossir ou de espirrar. Esses barulhos que você faz ao mastigar ou ao engolir. Essa sua postura vulnerável diante do que você gosta demais. Esses seus cuspes de quando fala de maneira mais empolgada. Esse seu olhar forçadamente confiante de quando acorda vigiado, ou de quando quer esconder algum susto ou alguma vergonha. Essa sua maneira despercebida de impor ritmo calculado ao corpo, a depender do que estiver acontecendo. Essa sua voz ingenuamente firme de quando fala sobre coisas tão suas e tão desprezadas pelos outros. Esse seu desconforto, por vezes disfarçado, por vezes escancarado, de quando conhecidos seus, de contextos diferentes, se encontram num mesmo lugar com você. Essas satisfações desnecessárias que você dá a quem só queria socializar breve e automaticamente. Essa sua capacidade de ser suprimido em situações de que tanto se arroga saber lidar. Esse seu riso sem graça...

Isso tudo e muito mais. Isso tudo, menos esses seus pesados suspiros distraídos e essas suas lágrimas no travesseiro, que são o charme fino do seu íntimo. De resto, isso tudo não passa de sua superfície grosseira e de sua humanidade exposta, que te banalizam de forma truculenta, cravando você na atmosfera desconfortável do meu coração.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A fonte




Meio impaciente, fui depressa em direção ao precipício e vislumbrei tudo de uma vez. Olhando e indo, indo e olhando, eu via tudo, sem na verdade ver nada. Eu sentia tudo, sem na verdade sentir nada. Eu queria ser tudo, sem de verdade querer ser nada.

E, assim, nesse vôo em que me encontro agora, de corpo e alma em direção ao horizonte, fecho os olhos sem discernimento algum, com a esperança de tocar, ao menos por um milésimo de segundo, algum pedaço de chão que, em mim, toque de volta, antes do impacto eminente, com alguma sublime emoção.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Daquele que se agarrou ao chão


Com as pontas dos dedos,
Se segura no chão.
Com toda a sua força infalível,
Se prende ao chão.

A primeira parte se destaca,
Quase risonha.
A segunda nem avisa,
De vergonha.
E a terceira já nem se percebe,
Medonha.

Assim ele vai-se indo,
Seguro ao chão.
Até que não sobra nada.
Não sobra braço.
Não sobra perna.
Não sobra mão.

E um último grito se ouve.
Quase como uma comemoração.
Uma insana comemoração.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Suspiro



Essa folha em branco tenta absorver esse suspiro forte e profundo, que acaba de me ocorrer. Mas de um suspiro distraído, não se tira lição, nem se tem qualquer solução.

Ele simplesmente acontece, revelador e espontâneo. Embora também seja misterioso e momentâneo. É quase um nada. Suspiro sem encaixe, sem lugar, sem perspectiva, sem vontade. Longa respiração, que diria tudo, se pudesse, se não fosse essa mistura de tanta coisa. Se não fosse essa coisa que se perde, como levada pelo vento, como num descuido distraído.

Um suspiro, até de mim mesmo, desconhecido. Um suspiro que insinua meus mais incompreensíveis desejos. Um suspiro assim, que, por mais corriqueiro que seja, vem gravemente de dentro. Bem lá de onde estou, em desarmonia com o mundo, fora do ar, meio ansioso, em suspensão. Suspirando entre o raso e o profundo, em uma oculta hibernação.  

Mortalidade




Os filhos enterram os pais
Que enterram os filhos
Que enterram as esposas
Que enterram os maridos

Assim um amigo enterra o outro
E o esperado se confirma.
Assim uma pessoa está na outra
Como a morte está na vida

Não dirão dos velórios
Tudo o que já disseram
Das batidas do relógio
Nem sempre foi a vida
Nem sempre foi a morte
Tudo o que de lá trouxeram

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Âmago



Tudo que eu queria
Era a minha canção
Aquela que fluiria
Do fundo do coração

Andando por ai
Me veio uma sensação
Aquela meio comum
De que algo perdi pelo chão

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Desconter-se



A porta se abre por onde a noite passa. O hálito gelado da rua escura circunda em um espírito que se lança, sai por aí e se desfigura. Passa cada passo como se fosse um vôo, como se fosse um salto. Enquanto sensações antes mortas vão sendo desenterradas, reafirmadas, desmortizadas. E mundos inteiros sacudidos, invadidos. Renascidos.

Esse vagar é maior do que qualquer momento, ele é eterno, é desde antes e será depois, para sempre. Não há mistério. Essas passagens são túneis repletos de imensidão, desorientação, confusão. Forte e aparente libertação.

Não é a realidade, a medida. É a intensidade. Intensa vontade de viver. Intensa vontade de fazer durar o que não tem tempo, de se fazer aqui o que não tem lugar. Ardente desejo diante do fracasso de não poder segurar, de não ser nada do que nunca será. De ser tudo, sem deixar de algo encarnar. De se perder. Dissimular...

É esse desespero que celebra a si mesmo, por esse delírio de tentar essa coisa realizar, mesmo sabendo que isso vai ao infinito e que não vai se alcançar, mesmo sentindo na pele esse grito, que não sabe parar de calar.

É, pois, nessa noite sonora, e em silêncio, que se faz esse rito, de fazer algo ser dito, ainda que mal dito, ainda que esquisito, diante desse infinito, que não pode ser contido, para ser exprimido, simplesmente por nunca parar de transbordar.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Segredo



Tem sido esse segredo último,
ultimamente.
Não é nada que eu saiba
exatamente.

De tão amortecido,
passa até despercebido.
E em segredo
permanece aqui comigo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Empatia



Posso ouvir o teu choro de onde eu estiver, mas não faço idéia de onde você esteja. Procuro-te e não te encontro. Mesmo assim, e bem por isso, o seu soluçar tem me causado calafrios e a tua dor tem berrado alto em meus ouvidos.

Mostre-se, diga-me onde você está! Preciso te ajudar, curar teu vazio, fazer algo que faça isso parar. Assusto-me a cada tosse, a cada mínimo murmúrio teu. Ultimamente tenho até andado olhando pra todos os lados, o mais atento possível, e nada.

Cada vez mais claramente escuto o teu íntimo. Até mesmo tuas lágrimas mais discretas e teus choros mais secretos não param de me alcançar. Tenho ficado muito angustiado mesmo com o fato de não conseguir saber de onde isso tudo vem, desconfiando cada vez mais do que isso tudo possa estar se tornando.

E é assim que, insistentemente, com cada vez mais frequência, não tenho mais parado de sentir toda essa tua tristeza que não passa, todo esse teu sofrimento inevitável, que já estão se tornando, quase que exclusivamente, essa minha agonia que perdura...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Isso



O que é isso que surge assim tão de repente, como se já estivesse ai, como se já estivesse sempre em todo o lugar? O que é isso que está alerta demais, cheio de sustos e perseguições, pavores e assombrações? O que é isso que está chegando, que está vindo logo ali, novamente, sem parar de chegar?

Isso que me assombra, que me amedontra, que nunca me evita. Isso que me faz sentir minha própria dimensão, dentro de qualquer imensidão. Isso que anda em círculos, que faz os bichos andarem pelos cantos, cabisbaixos. O que é essa coisa que só não me alcança mesmo por já está no próprio ritmo da minha respiração? O que é isso de que quase sempre me esqueço?

E se já faz tempo que nem parece mais alucinação, o que é que é isso mesmo, então?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Morrer de rir



Morro de rir dessa sua confusão, desse seu jeito de viver por achar que sabe, por tentar dizer que, em verdade, nada sabe. Dou muita risada dos seus compromissos, das suas missões atrapalhadas, sonhadas, imaginadas, que vão sendo trituradas, arrebentadas, redimensionadas.

Uma viagem que nem se completa, um destino que está em toda parte, sem se encontrar em parte alguma. A velocidade sem vento, tanto lamento. Eu vivo é rindo do seu ser em movimento, atento, assustado com o tempo.

E esses sinais, essas buzinas, esses barulhos, esse labirinto, essa perdição, esse desalento. Disso tudo eu me distancio tanto, mas tanto, que sumo da minha própria vista em certo momento, sentindo minhas delícias se multiplicarem, as emoções se redobrarem, como se já não houvesse outro sentimento. Fingindo esse calor não mais existir, fingindo para sempre partir, fingindo tantas coisas, todas as coisas que se há de fingir. Ah! Como é maravilhoso morrer de rir...

domingo, 18 de julho de 2010

Insonhar



Aquele acordo silencioso possuía um mistério nada saboroso. Não explicaram as regras, não explicaram o jogo, mas eles viviam claramente daquele jeito, como se soubessem, como se esperassem, como se concordassem. Os corpos iam de um lado para o outro, em um mecanismo absurdamente valoroso. Apesar de toda a reza, apesar de todo o choro, apesar de toda a euforia, de toda a mentira, o mito, a palavra, mesmo com toda a vontade, o acordo eles cumpririam. Nem precisavam saber, pois assim mesmo sempre saberiam. Ao silêncio nunca resistiriam.

Vingaram as distrações, a dormência e as ilusões, eis o segredo dos corações, a dor latente de um ser sem paixões, de enfim, nada temer, pois esta insônia toda teria mesmo que ceder. Foi só alucinação, foi só impressão. Passa hora, passa tempo, passa agora.

Aos poucos, os tons vão baixando, os instrumentos parando, as vozes sumindo. Bem baixinho, isto tudo acontecendo. Sorrateiramente vencendo, mesmo anoitecendo, mesmo amanhecendo, adormecendo, adormecendo, adormecendo...


O relógio, o sonho, a vida, o engano. São olhos abertos, vermelhos, gana e vontade. Vigília e pulso, cochilo e coragem. Fantasma, zumbi, insônia, agonia. Não cansa, não cansa, não cansa de toda a lembrança, o branco, o escuro, o nada, o absurdo. Deito, leito, vibro, bailo, madrugo. Aceito, direito, é cedo, é isso, consigo, vencido, morto, o acordo, silêncio é talento, nem fecho, nem tanto, nem tento, é só o momento, não surpreendo, defunto, inundo, imundo, vou fundo, profundo, no fundo do mundo... Anda, corre e voa, que luz não magoa e vai à toa, silêncio ecoa, ecoa, ecoa, ecoa...



Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar.
Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar...

domingo, 13 de junho de 2010

Nada



E a vida, quê é?
Um sonho do não-ser?
Um sopro sem porquê?
Vivo sem saber...

Vivo?

Se for perdido,
tanto faz...
Se não há perigo,
já não importa mais...

Eis a morte,
derrubando tudo.
Grosseira, ligeira...

Não foi nada,
não é nada.
É vida, é morte,
sorte, norte, corte.
Nada.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Gênese



Quando me dei conta, eu já acontecia... Cada passo meu ia se misturando àquela confusão, àquele turbilhão incompreensível... Era como se eu estivesse sempre correndo no interior de uma imensidão caótica. Homens dourados, em coros dramáticos, circulando ao meu redor, sem nunca desafinar, não paravam de falar sobre um certo poder de resgatar algo maior, infinito, alguma suposta preciosidade perdida, que me daria sentido, que me daria solução, que me revelaria experiências reais, concretas, verdadeiras. Esses seres parecem esquecer que o meu acontecer é constante, independente, selvagem. Não preciso que me consolem, que me prometam justiça, caridade e vingança. Estou prosseguindo com o que vejo, sentindo a terra em minha pele, a energia em meu espírito e a vontade de gritar com minha própria garganta, por meus próprios motivos.

Sinto a força do insistente amanhecer, daquilo que me faz voar, mesmo soterrado, daquilo que me retira tudo antes de eu nascer e que, ao mesmo tempo, me dá corda para tentar recuperar. Recuperar o fôlego, recuperar o ar que preciso, recuperar as cores com que posso brincar.

Não preciso que se desculpe, que pinte telas belíssimas para admirações olímpicas. Não pedi retrato-falado, retrato-bem-elaborado, retrato-inventado. Não preciso estar inteiro, quero mesmo é estar íntegro, sem suas digressões, sem sua possessividade. Não adianta, não me sinto ligado a suas imaginações, nem mesmo às minhas que nascem das suas. Eu tenho meu próprio acontecer, meu próprio poder.

Ladeira abaixo, cantarolo com pássaros de asas quebradas. Não quero falar sobre eles. Me calo. Canso das batidas nas pedras pontiagudas, das batidas do coração, das batidas daquela velha canção em repetição. Não preciso de uma imensidão que me console, nem de uma podridão que se apiede de mim. Se ainda tenta falar por mim, é porque teme minha escalada em sua civilização.

Não, não quero sua defesa, nem sua solução. Meu começo é meu momento, minhas nostalgias e ancestralidades são minhas. Você nunca pediu minha permissão. Não preciso de suas palavras, elas só fazem voar como penas, fingir coisas que não existem. Se não consegue me entender em minha condição, é porque esquece que foi o mamute que inventou sua civilização.

Eu até entendo sua vigilância cerrada, mas saiba que qualquer vacilo, qualquer deslize seu, entro pela porta da frente sem começo algum, sem explicação, sem coesão. E como sou fruto de sua imaginação, ajeito sua cabeça em um segundo, com todas as pedras e paus que tenho na mão. Quer continuar com historinhas? Crie os terrenos que quiser, sei que tem boa imaginação, só não esqueça que também surjo do vento, e nesta bagunça toda, posso surgir de qualquer direção.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Aberração



Ele mergulhou e se banhou em luz. Quando saiu daquela bacia quebrada, as asas já brilhavam com perfeição. A cura tinha sido incrível, nem parecia mais aquela criatura cotidianizada, da velha selva de pedra. Ele foi se acostumando aos poucos com a sensação que traz o vôo livre; o vento na pele, a vertigem da altura, a multiplicidade de direções e sentidos a serem traçados. A potência era tão grande, que demorou a se acostumar com tantas possibilidades. Mal sabia ele que poderia ser assim tão, tão, tão humano...

Mas até chegar a esse ponto não foi tão fácil, o percurso foi confuso. Não foi pela escuridão da fé, nem pela luz da razão, muito menos de modo equilibrado e diplomático. A guerra foi em outra dimensão, em um plano totalmente inédito, meio abstrato, meio concreto. Naquele cenário vazio, recheado de uniformes, em meio àqueles objetos sedutores que valiam tudo, ele, como um anfíbio acuado, foi inchando, mas inchando tanto, que acabou por explodir, coroando-se assim rei de si mesmo! Nenhum fantasma, nem zumbi, com suas palavras autoritárias e vencidas, conseguiram mais se aproximar daquele ser esparramado, insubordinável.

Aquele poder não gerava solidão, não era como na cidade, era diferente, não dá para transformar a sua perfeição em palavras perfeitas, pois nem a mais apurada técnica é capaz de traduzir a liberdade de ser sem ter que ser... A ruptura foi dolorosa. Claro que muito mais pelo costume do que por qualquer outra coisa. O botão de dar corda, aquele enfiado no meio de suas costas, foi bruscamente arrancado, para que, enfim, desse lugar àquelas asas cansadas de tanto serem guardadas pelas empoeiradas presas mecanizadas, fazendo com que surgisse a maior aberração de todos os tempos!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Supermundo



Dos escombros saem criaturas imundas rastejando por pedaços de vida. O odor que preenche aquele lugar é repugnante, ficar ali é uma sensação levemente insuportável. Os olhos decaídos de cada ser contemplam suas próprias desgraças. Em meio ao lixo, pétalas perfumadas são regadas por lágrimas podres dessas miseráveis criaturas.

Sem se esforçar para sentir qualquer tipo de dor inevitável, todos se tornam magos, todos imaginam correntes e cadeias, que funcionam como fluxo e calabouço ao mesmo tempo, em uma rotineira sintonia coletiva. Naquele mundo fantástico, cada criatura é jogada à própria sorte, fazendo com que as velhas sinas sejam desmanchadas no ar, enquanto os novos sinos não param de anunciar a liberdade da busca pela felicidade, ou simplesmente, da busca pelo sofrimento ideal.

O mundo inteiro ajoelha-se diante da explosão estrelar devastadora, que origina lobos famintos uns pelos outros. O horror espalha-se incessantemente naquele pobre lugar, fazendo da degeneração um vício e da decadência uma saída providencial pelos fundos.

Aquele é um mundo onde loucura e banalidade se confundem, onde todos teimosamente pretendem sobreviver dentro das suas ilimitadas potências, onde, enfim, a carne está rasgada, a alma está ferida, mas os devaneios e delírios não deixam de construir roteiros homéricos, ilustradores dos tropeções mais ridículos, das vitórias mais risíveis e das conquistas mais corriqueiras.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Queria lhe lembrar algo...



Queria fazer uma homenagem às prostitutas, que em sua bendita paciência, aturam os homens que se esfregam nojentos... pelo seu sofrer homérico, de bailar com o corpo e de ter que driblar os horrores, os brutais e insensíveis religiosos... queria lembrar da moça que brinca de balanço porque quer, porque é bom, mas também da que brinca sem sorrir, sem gostar, sem gozar emoção nenhuma... das que doem e doem em sua flor pequena e ingênua... porque não podem com os lobos... e são vendidas, e são transportadas de lá pra cá, no mundo virtual, numa angústia espantadoramente real...

Sentes nojo delas? De suas bocas peculiares e cuspidas? Por que não respeitam as donzelas de alma?... Ser puta de corpo é ser gente que sente, como um político corrupto é gente que toca em seu ombro, aperta sua mão e você sorri... Se não sorri pras mulheres da vida, então chore pelas flores vermelhas... Só não esqueçam que algumas são felizes, não proíba quem quer, sejam anarquistas em alma, seus violentos!

Salvem as puras que sorriem sem dentes... estão em algum esgoto! sem gosto, sem vida, sem nada... pare de lhe dar tiros embalados de preconceito... Falta-lhe carinho sem violência, falta-lhe afeto sem braços roxos, falta-lhe você... falta-lhe eu... eu que hoje senti um pesar, ao lembrar de uma casa que não existe, mas que é real... casa que também é putêro, que vive gente, que também habita dentro de mim...

Sim, nós somos deuses!



Que isso tudo é vazio, não é novidade. Porém tijolos de ouro tentam nos convencer que existe uma verdade, aquela verdade especial, a preciosa, que cala nossa boca só de se mostrar...

Zumbis enfeitados com suas jóias reluzentes convencem seres fortes e corados a morrerem sempre, todo o amanhecer. Tantas cores na tela entontecem nosso senso, prendem nossa respiração, aprisionam peças valiosas.

Mas não podem esconder o abismo por muito tempo, não, não podem. A vertigem do despertar, da vigília, dos momentos livres e inúteis não deixará nossa sensibilidade metalizada. Homens sérios se desmancharão diante dos nossos sentidos. Rituais distraídos perderão suas máscaras, e quando todo o nada se revelar, nossas bocas serão descosturadas eternamente, sem cicatrizar, num constante criar, numa eterna revolução.

Que tudo isso é vazio, não é novidade. Mas não há decepção na conclusão, e sim criação, esperança, recomeço, poder.

Tudo pode mudar... A realidade não existe, eis a boa notícia! No vazio podemos construir nossos sonhos vazios.

Sim, nosso vazio é criativo...

Sim, nós somos deuses!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Você para pra pensar...



Você para pra pensar e não é nada daquilo que você pensou.
Nem sequer imaginou que poderia ter apodrecido com o tempo. Não cogitou em nenhum momento que a multiplicação é sempre um câncer.

O que fazer em desertos gelados? Como não ser vencido pelo cansaço?

Os ventos da existência desgastam até a pedra mais bem polida. Não há espaço para tanto riso, a não ser a comédia ferina, que mascara dores.

Não há tempo para se perguntar se você está alimentando seu inimigo. O ato é só agora. O presente exige e convence que está acontecendo na exatidão do tempo.

A esperança é vã. As coisas sempre mudarão. E mesmo que não piorem, os costumes existirão. O cotidiano ritual não cessa. E vai segurar suas mãos como criança sorrindo e girando, com sua brincadeira leve e diabólica.

Não há verdadeiro suspiro. O que há é um verdadeiro peso no pulmão, que quase te destroça todo por dentro, que te tira do sério, que te faz avançar, mesmo que você não queira, que berra em seu ouvido como um despertador feroz.

Nesse movimento, que talvez não o leve além, você vai empurrando a si mesmo, imaginando as belezas das ideologias sadias, dos combates e embates a favor de suas idéias e de sua moral.

O mundo dá nó em seu coração, e isso vai apertar ainda mais, meu amigo.

E você me pergunta do que estamos falando aqui exatamente? O que mais temos a falar, senão dessas banalidades que nos mantêm de pé, que nos fazem sensatos e serenos, que não abdicam nunca em favor da nossa fera faminta, que nos arrastam para diante do nosso inimigo verdadeiro que está sempre em todo lugar, que está na superfície da aparência e no profundo da essência?

Homens sérios vivendo seus momentos, andando em círculos. Os gritos do peito traduzidos em sentenças racionais ou em expressões artísticas, tanto faz.

Você para pra pensar e não era nada daquilo que você pensou.

Mas mesmo assim, não paramos de caminhar com nossos paus e pedras nas mãos, unhas e dentes afiados, prontos para explodir e nunca mais ficar no lugar...